quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Fragmentos de um eu II - uma kombi com porta de correr.


Eu não tenho carteira de motorista, nem penso em tê-la tão logo. Vou esperar para comprar minha Kombi. Isso, Kombi. Se encontrar uma igual à do “Pequena Miss Sunshine” vai ser legal. Mas gosto de andar a pé, gosto de andar de ônibus: gosto especialmente de andar. Não me afeta o violento desejo de chegar a parte alguma ou de expulsar-me impetuosamente de lugares – quero estar sempre indo.

Tenho vinte e quatro anos. Ano que vem, vou cantar como o Belchior, “tenho vinte e cinco anos de sonho, de sangue e de América do Sul; por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues”. Mas, só no ano que vem. Por agora, ainda não encontrei minha canção.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Ano novo, geladeira nova


Outro fim de ano vem chegando: tempo de férias, viagens e a confusão de sempre. Alguns – e estes são maioria – trocam a cidade pela praia; outros trocam a cidade pelo campo; e há um grupo de terceiros que, no máximo, trocam a cama por uma rede e encaram o verão como um longo período de meditação e hibernação. Se não estou enganado, os ursos também hibernam, mas parece ser no inverno¹. E sem rede.


É engraçado ver como as pessoas se comportam nos dois últimos meses do ano e nos dois primeiros do ano novo, vivendo numa velocidade acima do normal e numa ansiedade que salta pelos olhos. Algo como se o dilúvio bíblico fosse se repetir, então o melhor a fazer é correr para a praia antes da inundação.



Confesso que a agitação do fim de ano e, sobretudo, da temporada de verão, me incomoda. Mas tudo isso passa, sempre passou e sempre, por mais um longo tempo, vai passar. E, no ano que vem, você vai ouvir de novo que o ano passou rápido, mas você sabe que sempre demora o mesmo tempo.



A história é sempre a mesma: finalmente você vai terminar de pagar o carnê da TV que você comprou, então vai poder comprar aquela geladeira nova que você tanto quer. Você vai começar a caminhar nas terças e quintas para emagrecer. Vai voltar à igreja e parar de fumar. Vai parar de assistir televisão até tarde. Nunca mais vai esquecer a comida do cachorro. Vai escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Não nessa ordem e sem tanta pressa. E, então, você acredita que finalmente vai ser feliz.
(Dezembro de 2003)

¹
Hibernar só é possível no inverno: a palavra deriva do termo latino hibernare, que significa “estar, cair em hibernação”, isto é, estar em estado de torpor ou letargia, em período de extenso descanso. Na mesma linha, há [tempus] hibernum, ou seja, “tempo hibernal”. Inverno, aportuguesada, perdeu o “h”, mas a derivação não. Outro exemplo: erva-herbívoro (de herba). Então, “hibernar no inverno” é redundância pura.
Fica aqui – passados quatro anos – a teimosia do autor em não mudar o conteúdo do texto original e suas tentativas (passíveis de fracasso, diga-se de passagem) de buscar outra explicação para o equívoco que não seja a que resulta da própria ignorância. (bg, dezembro de 2007)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Não posso fingir que não gostei (ou: Tchau, já foi tarde)


Dois de dezembro, dois mil e sete, quatro e pouco da tarde - Aos gritos de “timinho, timinho”, a torcida gremista invocava ao campo do Olímpico os hesitantes inimigos alvinegros. Enfurnados no vestiário, os fracassados soldados do Sport Club Corinthians Paulista adiavam – a esta altura, em um atraso de mais de dez minutos –, covardemente, o inevitável: o naufrágio que coroaria a sucessão de desgraças conquistadas pela equipe no ano, graças à mediocridade de comandantes e comandados do grupo.
De nada valeu o esforço manipulador da mídia sudestina. De nada valeu a tentativa de pintar o jurássico Vampeta como líder capaz de motivar os quase afogados corinthianos para um último suspiro. De nada valeram as rezas nem as psicopatas demonstrações de amor pelo clube protagonizadas pelos membros da “fiel”. Nem o súplico "salve o Corinthians, blá-blá-blá...", cantado já no primeiro verso do hino do clube, surtiu efeito. Afundou - e já foi tarde.
Não posso fingir que não gostei. Por pouco mais de noventa minutos, esqueci que sou gremista para ser mais um anti-corinthiano. E juro que não é mágoa de quem já jogou a segundona: ver os representantes do auto-intitulado “todo-poderoso timão” como um bando de franguinhos perdidos em campo me trouxe uma estranha e honesta satisfação.
O corinthians (agora, assim, com minúscula) precisava apenas de uma vitória. Apenas. Se vencesse, não dependeria de mais ninguém para se manter – ainda que injustamente – na elite do futebol nacional. Doce lógica natural: quando mais dependeu de si, faltou-lhe o que nunca teve, a tal da qualidade.
Com um minuto e pouco de bola rolando e um gol fácil, o Tricolor mostrou que estava disposto a colaborar com uma bigorna para levar o timãozinho ao fundo do mar de lágrimas derramadas no campeonato. O gol chorado do pseudo-ídolo-injustiçado-zé-ninguém Clodoaldo não ajudou em nada. Posso estar enganado, mas o Grêmio – que já não disputava mais vaga na Libertadores do ano que vem – parece ter relaxado um pouco, para fazer da descida mais suave, ou para, sadicamente, deixar um fiapo de esperança no ar.
Em outro paralelo da história, os apenas esforçados colorados ajudaram com uma “pedrinha” a mais: sucumbiram ao Goiás (que “disputava” com o sccp uma vaga na divisão inferior), no Serra Dourada, por dois a um. Um lance do jogo mostrou como, de tão triste, certas coisas são engraçadas. Onze do segundo tempo, Goiás e Inter empatavam em um a um; Grêmio e corinthians repetiam o escore. Então: pênalti para Goiás – vai lá o vovô Paulo Baier, chuta, Clemer se adianta e defende. O juiz manda voltar, parece replay: vai lá o vovô Paulo Baier, chuta, Clemer se adianta e defende! Invocado, Élson pede a bola e, com o goleiro vermelho se adiantando e tudo, sepulta de vez o timeco de preto e branco, a uns dois mil quilômetros de distância.
De certo modo, temo o que pode brotar desse justo capítulo do futebol nacional: a Globo deve preparar uma minissérie ou um documentário em 216 partes para ser exibido em horário nobre ou colocará o Galvão Bueno para narrar os embates corinthianos na segunda divisão – para tal, não transmitirá os jogos da Série A em 2008, já que, segundo as estimativas mais tendenciosas, os “fiéis” representam mais de dez por cento dos torcedores nacionais. Dezoito milhões de pessoas merecem, enfim, tamanha regalia (números fajutos apontam para absurdos trinta milhões).
Não foi como eu pensei: eu sonhava com um histórico e humilhante dezenove a um. Mas, o que me anima é que, do jeito que está, tão cedo o corinthians não volta. Idiotas de plantão arriscarão: ‘tudo isso é medo?’. Não é mesmo. Eu tenho medo é dos vivos. Canta, fiel, mas canta alto, que do lugar onde vocês estão, não ouço nada! Tchau. Repetindo: já foi tarde.