segunda-feira, 19 de maio de 2008

Migrações

Atravesso o horizonte, atravesso horizontes, pontes, nada me pára, nada me pára. Flutuo leve como o esqueleto de um pássaro, uma folha, desprezo ares, mares. O vento me golpeia a cara como um inimigo, um irmão, e eu me sinto um cão, um cão com asas.
Ignoro as cores, que as cores nada mais são que as cores de outras cores e eu rasgo um céu verde-azul vermelho-cinza preto-qualquer-coisa, na velocidade do som, que agora é uma canção antiga. O som do céu sai de um piano desafinado. Canto o meu próprio silêncio, que o gosto de estar só é amargo – a liberdade é uma flor comestível.
Furo as nuvens de algodão colorido. Corro sem pernas, de nada valeriam as pernas num espaço-tempo impossível, impassível. O que me espera é um nada e o nada restou de tudo que se perdeu, e o que se perdeu já é também nada e o tudo é nada, e o que me espera é um tudo ou nada de coisas nenhumas.
Sigo correntes migratórias de idéias, planos refugiados, tudo se renova em um exílio mental, tudo, tudo – de novo este tudo a me perturbar, a entupir-me os neurônios. Quero gritar um não de catorze as: que os aviões escutem, que os ventos escutem, que os meus ossos escutem, que eu, surdo, escute. Não, nada me pára, nada me pára, tenho pressa de vida de morte de sorte.
E eu me perco dentro de um corpo que me prende como uma mensagem na garrafa, como inseto na teia, como sangue na veia, e vejo o mundo correr. Desgraçada inércia que me transporta sem ser transportado!
Vejo sinais, avisos, minha cabeça gira como uma hélice, ventilador. A estrada não tem tijolos amarelos e eu tenho (sim!) um coração, que é mais animal do que eu – selvagem -, que é mais eu do que eu. E o céu agora é mar, mas o mar não é céu, o mar é refrigerante, desinfetante, analgésico e o sol quando cai no mar apaga. Tudo nessa vida apaga: o fósforo, o amor.
Tantas e tantas voltas no mesmo lugar. O mundo é de plástico, teu sorriso é plástico – eu desenho um mapa nas tuas costas e pronto: o mundo é tatuagem.

3 depois de mim.:

RobsonB disse...

Um dos melhores posts já feitos em "a insanidade não tem nome".

Me lembra o (Antônio) Abujamra (do "Provocações") arranhando palavras assim, em uma prova de que é mítico no teatro e uma interpretação forte pode transformar meras palavras em um momento glorioso, com gestos fortes intercalados em palavras suaves, envolvendo os ouvidos e os olhos.

André Pelin disse...

Sem dúvidas, os dois pontos mais altos da crônica (ou qualquer outro nome que algum teórico pragmatista queira dar):
"de novo este tudo a me perturbar a entupir-me os neurônios."
"eu desenho um mapa nas tuas costas e pronto: o mundo é tatuagem."

Excelentes essas duas partes!

Ataisa Antonia disse...

"...a liberdade é uma flor comestível..."
Entre outros vários trechos, fantástico...
Lindo texto.