quinta-feira, 29 de maio de 2008

Patrícia Galelli

Fazem a tinta não caber nesses quilômetros


Essa projeção de idéias me finda. Finda meu nome, pra recomeçar. Um atropelo de instantes corridos. Um colorido que eu preciso pintar. Parece desequilíbrio, me contorço, me encosto. Uma revolta se balança em cada fio do meu cabelo. Parece uma dança, uma ameaça, um encosto. Parece que até o mundo é capaz de parar, para que não pare a projeção em mim.
Pareço um fantasma da terra dos vivos. Desses que se alegram em nascer da terra, com o mesmo verde, com o mesmo adubo. De uma alma inteira sem paz entre os mortos. Um fantasma feio, desses que assombram cemitérios, castelos ou os pântanos de desenho animado.
Passa o dia. Quase perco a imagem que me traz vida. A projeção antiga que agora toca. Um sorriso manchado de arte esquisita, que se perde na vontade de achar. Boca, dentes e língua. Fazem a tinta não caber nesses quilômetros que me consomem. Um sorriso de nadas, que morre nas linhas curvas que me contornam. Mas, mexo com os olhos, arregalo. A paz é ver. E se vai, me fazendo vácuo, me fazendo cinza – quase que para nunca mais.
Volta, porque grito baixinho. Igual um pedido para a luz voltar. E existe de novo, como se não tivesse se ausentado. Como se tivesse ido viajar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Robson B

Paralelo

Seguir os caminhos de uma vida para lê-la não é apenas seguir espaçadamente entre uma ponta e outra separadamente. Somos um, mesmo que dois ou três, de modo que estar paralelo é um artifício mítico, intangível, inatingível... as linhas que caminham lado a lado, mesmo que eqüidistantes, seguem juntas, na mesma direção, no mesmo caminho.

Estar vivendo num lado paralelo é estar vivendo a mesma vida de sempre, mas sentado na poltrona ao lado, é o querer sentar-se junto à janela, paralelo a poltrona dos caminhos do corredor. É estar sentado sob o sol, paralelo a luz do luar. E é a luz do sol, em meio a chuva de gotas paralelas, com seu prisma novo de paralelos de várias cores num arco-íris, em que as cores são diferentes, mas iguais e no mesmo caminho, se renovando excitante e exercitante.

O paralelo é o mesmo você de sempre, mas na face oposta da moeda, na outra metade do yin-yang, muitas vezes a sua real identidade, mas paralela a sua realidade, é estar paralelamente oculta para se adequar ao paralelo dos outros, que são um, mesmo que dois ou três. Ser paralelo, para lê-lo, é ser sempre o mesmo, mas diferente e, sendo diferente, ser o paralelo de você mesmo.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Você será eu (não que isso seja bom)

Publique-se em mim
O recesso será mantido até sabe-se lá quando — isso não é um retorno.
Abro aqui uma fresta nesse universo particular para que algum dos poucos leitores (e até para quem nunca passou por este pequeno planetinha de sentimentos) exercite seus desabafos, às custas de meu espaço e minha responsabilidade. Mas a culpa, no final, será inevitavelmente minha.
Para tanto: envie seu texto para
hermanojorgito@gmail.com. Os escritos serão analisados de forma criteriosamente absurda. A decisão de publicação será arbitrária, inquestionável e irrevogável. Não serão utilizados excertos: ou tudo, ou nada. Adeus.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Recesso

Por horas. Por anos ou minutos. Por agora, pelo menos. Como um pássaro, um vento.

(Para ler ouvindo "Adeus você", do Bloco do eu sozinho - Los Hermanos)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Migrações

Atravesso o horizonte, atravesso horizontes, pontes, nada me pára, nada me pára. Flutuo leve como o esqueleto de um pássaro, uma folha, desprezo ares, mares. O vento me golpeia a cara como um inimigo, um irmão, e eu me sinto um cão, um cão com asas.
Ignoro as cores, que as cores nada mais são que as cores de outras cores e eu rasgo um céu verde-azul vermelho-cinza preto-qualquer-coisa, na velocidade do som, que agora é uma canção antiga. O som do céu sai de um piano desafinado. Canto o meu próprio silêncio, que o gosto de estar só é amargo – a liberdade é uma flor comestível.
Furo as nuvens de algodão colorido. Corro sem pernas, de nada valeriam as pernas num espaço-tempo impossível, impassível. O que me espera é um nada e o nada restou de tudo que se perdeu, e o que se perdeu já é também nada e o tudo é nada, e o que me espera é um tudo ou nada de coisas nenhumas.
Sigo correntes migratórias de idéias, planos refugiados, tudo se renova em um exílio mental, tudo, tudo – de novo este tudo a me perturbar, a entupir-me os neurônios. Quero gritar um não de catorze as: que os aviões escutem, que os ventos escutem, que os meus ossos escutem, que eu, surdo, escute. Não, nada me pára, nada me pára, tenho pressa de vida de morte de sorte.
E eu me perco dentro de um corpo que me prende como uma mensagem na garrafa, como inseto na teia, como sangue na veia, e vejo o mundo correr. Desgraçada inércia que me transporta sem ser transportado!
Vejo sinais, avisos, minha cabeça gira como uma hélice, ventilador. A estrada não tem tijolos amarelos e eu tenho (sim!) um coração, que é mais animal do que eu – selvagem -, que é mais eu do que eu. E o céu agora é mar, mas o mar não é céu, o mar é refrigerante, desinfetante, analgésico e o sol quando cai no mar apaga. Tudo nessa vida apaga: o fósforo, o amor.
Tantas e tantas voltas no mesmo lugar. O mundo é de plástico, teu sorriso é plástico – eu desenho um mapa nas tuas costas e pronto: o mundo é tatuagem.

Novamente, no início


O menino que enchia as mãos de cola, esperava secar, e depois arrancava — com um prazer quase criminoso — aquela nova camada de pele que se formava, hoje não existe mais. Ficou o que roía as unhas escondido, mas o garoto que a cada dia se desfazia da casca que é a pele, esse não. Esqueceu-se em alguma sala de aula da infância, em alguma praça onde brincava com a própria timidez.
Preciso entender isso. Ainda tenho dificuldade para compreender certas fases da vida, certos rompimentos. Ainda sinto que recebo um décimo do que dou: e, mesmo assim, não consigo deixar de pensar-me egoísta, por justamente acreditar que entrego muito mais do que acabo tendo em retorno. Mas o sentimento não se mede, pelo menos o meu é sem tamanho.
Tenho um orgulho besta e uma insegurança que às vezes beira a melancolia. Meu coração é um outro eu. Entretanto, esse mesmo coração confuso, cheio de dívidas e dúvidas, e que se pega por momentos alimentando pequenas mágoas, é também o coração que se abre em mil janelas de bondade, amparo e gratidão, na incerta tentativa de mostrar que "gentileza gera gentileza". Sou assim — teimo em ser assim. Sou, no saldo final, uma pessoa do bem.
O que faz sentir-me, por horas, clandestino em mim, ou como se meu coração fosse um estrangeiro no meu próprio peito não é o medo de amar. O que me entristece, me faz desviar ainda mais o olhar, é não aprender, nem às custas de sofrimentos, que a vida não é linear, que cada dia é um recomeço.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Tópicos de uma vida nada emocionante (desconsiderando prioridades e datas)*


- Voltei, sim, a comer carne.
- Comprei minha desejada Nikon.
- Encontrei o pingüim de pelúcia.
- Não fiquei triste com a morte de Edward Lorenz, pai da Teoria do Caos (16 de abril).
- Ainda quero a kombi estilo "Pequena Miss Sunshine".

*A fim de (des)atualizar quem lê (quem lê?!).

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Quando escrevo e sou palavra

Quando escrevo, não quero agradar a deus ou ao diabo. Não escrevo para libertar demônios. Quando escrevo, desatino de mim — sou o que jamais seria e, ao mesmo tempo, o que simplesmente quero ser, cru, e sou a própria palavra.
Não escrevo para ninguém, tampouco sei se para eu mesmo. Quando se encontram nos meus textos, é porque se perderam de algo (“não sou leitor do mundo nem espelho de figuras que amam refletir-se no outro, à falta de retrato interior”, já escreveu C.D.A.).
Inevitável, contudo, é ser egoísta, quando escrevo: o que o papel recebe das minhas mãos, é meu, tão-somente meu. Frases avulsas, mentiras sinceras, nãos, sins e talvezes, nada pertence mais a quem me falou, no momento em que me foi despejado, cuspido, largado.
Quando escrevo e sou a palavra, sou fragmento de mim, sou caco, mais caco, mais caco.

sábado, 3 de maio de 2008

Mas não do olhar

Lembro que ela tinha olhos de fim de tarde. Olhos de café depois do trabalho, de sorrisos quase cúmplices. Às vezes, esquecia do tom de sua voz, das linhas do seu rosto, do seu espaço frente a mim, mas não do olhar. Ela tinha olhar de pôr-do-sol.

Eu respirava naquele olhar. Ela ria quando eu ria do sorriso dela — e quando ria, seus olhos ficavam puxados. Quando ria e seus olhos ficavam puxados, era como se valesse a pena o instante congelado, como se o tempo parasse numa falha.

Ela questionava meu silêncio. Meu silêncio não se explica: nasce da simples necessidade de eu não dizer nada – seja porque nem sempre as palavras revelam o sentimento, seja porque calar é o que sei fazer melhor, seja porque a quietude pode falar por si. Mas o silêncio sempre incomoda.

O fim de tarde escapou dos olhos dela, um dia. Fugiu para algum espaço entre nosso abraço, que era agora cortado pelo vento. Calei-me, mais por medo que por vontade. Que janela de indiferença abriu-se entre nós? Não sei.

Desacelerei. Vou seguir os passos do silêncio, ainda que me questionem. Mais falo quando calo. Se não ouvem, o que fazer? Não vou cobrar de volta o sentimento, não tentarei comprar sorrisos, não vou devolver palavras que me foram entregues quando os dias pareciam mais coloridos. Isso não vou fazer. Talvez eu tente usar um band-aid no coração, pra disfarçar.